Nack é uma pequena aldeia da Rheinhessen, terra de vinhedos e de trigo na margem esquerda do Reno. Em 1859 pertencia ao Grão-Ducado de Hesse. Hoje fica na Renânia-Palatinado, perto de Alzey.
Ali vivia Ludwig Klein, fundidor de estanho. Era um ofício antigo e respeitado. O fundidor derretia o estanho e o despejava em moldes para fazer pratos, canecas, jarras, colheres e castiçais. Para chegar a mestre, um rapaz passava anos como aprendiz e depois como oficial, antes de ter a própria oficina.
Registro dos emigrantes de Hesse: Ludwig Klein, de Nack, fundidor de estanho (Zinngießer), destino Brasil. O campo da religião está em branco (keine Angabe).
Hessisches Staatsarchiv Darmstadt, via LAGIS Hessen, ID 243861
Em março de 1859, Ludwig tinha 46 anos. A mulher, Magdalena, 48. Os filhos, Michael, 24, Ludwig, 18, e Elisabeth, 14. Naquele tempo, um homem de 46 anos já era visto como alguém perto da velhice, em quem ninguém esperava um recomeço. Ainda assim, ele deixou a oficina, a casa e a aldeia, e partiu com a família para o outro lado do oceano, para ser lavrador.
Nenhum documento guarda as razões dele. Mas a época explica muito. O estanho perdia espaço: a louça de faiança e de porcelana feita em fábrica, barata e bonita, tomava o lugar dos pratos e canecas de estanho, e o ofício encolhia. Hesse passava fome: entre 1845 e 1847, a praga da batata e as más colheitas trouxeram carestia a toda a região. A revolução de 1848, que prometia liberdade e direitos, tinha fracassado. Milhares de famílias deixaram Hesse naqueles anos.
A Associação Central de Colonisação no Rio de Janeiro, por intermédio do agente Dr. F. Schmidt, contrata com o colono Ludwig Klein, de Nack em Hesse. Texto em português e alemão. Passagem de Hamburgo ao Rio de Janeiro, transporte gratuito até a colônia na província do Espírito Santo, lote de terras e víveres por seis meses.
Contrato Nº 72 da Associação Central de Colonisação, Hamburgo, 30 de maio de 1859
Do outro lado do mar, o Brasil procurava braços. Em 1850 o Império proibiu o tráfico de africanos escravizados e passou a atrair europeus, com passagem, terra e ajuda para começar. Agentes percorriam a Alemanha oferecendo contratos.
Em 30 de maio de 1859, em Hamburgo, Ludwig assinou o contrato Nº 72 com a Associação Central de Colonisação no Rio de Janeiro, por intermédio do agente Dr. F. Schmidt. O contrato, impresso em português e em alemão, garantia a passagem de Hamburgo ao Rio de Janeiro, o transporte gratuito até a colônia na província do Espírito Santo, um lote de terras e víveres, ferramentas e sementes por seis meses. Tudo seria devolvido em cinco anos, em três parcelas a partir do segundo ano. O Consulado Geral do Império do Brasil em Hamburgo pôs o visto no mesmo dia.
Klein, Ludwig, 46 anos · Magdalena, 48 · Ludwig, 18 · Elisabeth, 14 · Michael, 24 · Wernersbach, Philipp, 24. Assinado em Hamburgo em 30 de maio de 1859, com visto do Consulado Geral do Império do Brasil.
Contrato Nº 72 da Associação Central de Colonisação, Hamburgo, 30 de maio de 1859
No registro de emigrantes de Hesse, o campo da religião ficou em branco. Poucos meses depois, em novembro de 1859, a Prússia proibiu os agentes que recrutavam emigrantes para o Brasil, por causa das condições duras que muitos colonos encontravam. A família Klein já estava do outro lado do oceano.
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Fontes deste capítulo
- LAGIS Hessen, Hessische Auswanderer, ID 243861
- Contrato Nº 72 da Associação Central de Colonisação, Hamburgo, 30/05/1859


