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    Vallendar: do preconceito ao extermínio

    1287 · 1942

    O ódio aos judeus não começou com os nazistas. Em 1287, em Oberwesel, rio acima, um menino chamado Werner foi encontrado morto, e os judeus foram falsamente acusados de o terem matado. A mentira provocou massacres em dezenas de comunidades do Reno e do Mosela. Em 1811, o administrador Koch ainda lembrava as perseguições que essa boa gente teve de suportar por causa de São Werner.

    No fim do século XIX surgiu um antissemitismo novo, que não falava mais de religião, e sim de raça e de nação. Os judeus passaram a ter de provar, o tempo todo, que eram alemães. Em Koblenz, o jornalista Anton Simonis espalhava esse ódio no seu jornal. Em 1909, perto do Natal, publicou: não comprem de judeus.

    A comunidade reagiu com as armas que tinha. Em 1894, Elias Rosenthal, judeu de Mayen, processou Simonis por difamação e venceu. Em 1923, judeus e não judeus de Koblenz fundaram uma associação de combate ao antissemitismo. Os judeus de Vallendar que tinham lutado na Primeira Guerra entraram para a Liga dos Soldados Judeus da Frente, que publicava os nomes dos seus mortos para lembrar que também eles tinham dado a vida pela Alemanha. Siegfried Loeb, filho de Ricka, morreu na Batalha do Marne, em 7 de setembro de 1914. Outros escolheram o sionismo: Herbert Scheye, um dos primeiros sionistas da região, emigrou com a família para a Terra de Israel, então Palestina sob mandato britânico, em janeiro de 1938.

    Ordem do partido nazista à prefeitura de Vallendar, 26 de agosto de 1935

    O chefe local do partido exige: nenhum judeu pode mais se mudar para Vallendar; comerciantes que negociarem com judeus perdem os fornecimentos à cidade; os judeus ficam proibidos de usar o balneário e o parque de águas. No balneário, uma placa: aqui só vale a saudação alemã, Heil Hitler.

    Landeshauptarchiv Koblenz · reproduzido em H.-H. Thill, SACHOR 5 (1993), p. 58

    Em 31 de março de 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, homens da ficaram de guarda diante das lojas judias de Vallendar com cartazes de ódio. Hermann Scheye gritou da janela para o guarda na porta da sua loja: seu vagabundo, sobe aqui, que você ainda me deve dinheiro. O guarda foi embora.

    Depois vieram a expulsão dos clubes, os ataques nos jornais, as placas de loja alemã nas vitrines. Em 26 de agosto de 1935, o chefe local do partido nazista exigiu da prefeitura, e a prefeitura decidiu: nenhum judeu poderia mais se mudar para Vallendar, os comerciantes que negociassem com judeus perderiam os fornecimentos à cidade, e os judeus ficavam proibidos de usar o balneário. Hermann Scheye, que tinha ajudado a fundar o balneário, não pôde mais entrar. Em 1936, ainda assim, ele escreveu à polícia reclamando de um homem que impedia os clientes de entrar na sua loja, e assinou: Firma B. Scheye, fundada em 1838.

    Vallendar, Löhrstraße, 1938

    As casas de Max Loeb (nº 41), Leopold Scheye (nº 49), Gottschalk Herz (nº 46) e Josef Seligmann (nº 44).

    Reproduzido de H.-H. Thill, SACHOR 5 (1993), p. 59

    Em 1937, os comerciantes de gado judeus foram proibidos de trabalhar. Entre eles, Ferdinand Loeb, da Kirchstraße 8, e Gustav Loeb. Gustav, doente, teve de dispensar a empregada que trabalhava na casa havia treze anos, porque as proibiam uma empregada não judia em casa judia. O filho pediu uma exceção ao prefeito. Foi negada. Em setembro de 1938, Gustav ficou preso duas semanas na cadeia da prefeitura enquanto a casa era saqueada. Morreu em Bruxelas, em 1941.

    Em novembro de 1938 veio o que o mundo conhece como Noite dos Cristais. Em Vallendar, os nazistas chegaram de carro pela manhã à , onde a maioria dos homens rezava. Levaram os homens para fora, ainda enrolados nos talitot, e os obrigaram a zombar da própria oração. Destruíram o interior da sinagoga, o banho ritual e o carro fúnebre da comunidade. Depois, em grupos, atacaram as casas de dezenove famílias judias. O professor Neumann levou uma martelada na cabeça. Siegmund Kallmann, um homem idoso, foi arrastado de chinelos e só de camisa, no frio, até a prefeitura.

    Lista oficial das casas de judeus atacadas em Vallendar, 29 de novembro de 1949

    Levantamento feito depois da guerra, com o nome dos donos e o que foi destruído no pogrom de novembro de 1938. Entre eles, Ernst Loeb, Rudolf Loeb, Gustav Loeb, Ferdinand Loeb, Hermann Loeb, Max Loeb e Moritz Loeb, e a sinagoga.

    Landeshauptarchiv Koblenz · reproduzido em H.-H. Thill, SACHOR 5 (1993), p. 61

    Os homens foram levados num caminhão de gado para a prisão de Koblenz. Os mais jovens seguiram para o campo de . Os mais velhos voltaram para casas destruídas e saqueadas por vizinhos. Na noite de 12 para 13 de novembro, a sinagoga foi incendiada com gasolina e querosene, diante de muitos espectadores. Quando os bombeiros tentaram apagar o fogo, outros moradores cortaram as mangueiras. A sinagoga que a comunidade tinha erguido com tanto sacrifício em 1856 queimou até as fundações.

    Siegfried Loeb, filho do padeiro Ferdinand, conseguiu fugir para Koblenz. À noite voltou, ligou para a polícia para libertar o pai e foi levado para Dachau no lugar dele. Com ele ia o ajudante da padaria, Erich Kahn, que morreu em Dachau em 14 de janeiro de 1939. O pai de Erich recebeu uma carta perguntando se queria as cinzas do filho, por 60 marcos. Não teve licença para enterrá-lo segundo a tradição judaica, e o fez em segredo.

    A sinagoga de Vallendar depois de 1945

    O que restou da sinagoga construída em 1856 e incendiada na noite de 12 para 13 de novembro de 1938.

    Reproduzido de B. Resmini, SACHOR 5 (1993), p. 54

    Seckel Seligmann, que tinha perdido uma perna na Primeira Guerra e recebido a Cruz de Ferro, foi empurrado escada abaixo em sua casa. A perna de madeira se soltou. Ele gritou: para que eu ganhei isto de vocês, canalhas? E foi espancado. As famílias foram obrigadas a vender as casas e amontoadas nas chamadas casas de judeus. Em 1940 e 1941, os homens foram forçados a trabalhar numa cascalheira, entre eles Josef e Max Salomon e Moritz Loeb, para que se acabassem mais depressa.

    Julius Günther, marido de Olga Löb, foi levado para Dachau em junho de 1941 e morreu em Buchenwald em 1942. Olga foi deportada em março de 1942. Com os outros judeus de Vallendar, marchou em coluna diante de um grupo de moradores que aplaudia. Em 27 de julho de 1942 partiu o último transporte, com os velhos que ainda restavam, para . O último judeu da cidade, Ludwig Hanau, casado com uma mulher não judia, morreu em 19 de setembro de 1942. Mais de seiscentos anos depois da primeira menção a judeus em Vallendar, não restava nenhum.

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