Este capítulo é meu. Escrevo em primeira pessoa, porque é a história da minha avó e da minha mãe, e porque durante setenta anos ninguém quis ouvi-la. Minha família não se afastou do judaísmo. Foi arrancada dele.
Minha avó, Othilia Catharina, nasceu em 18 de novembro de 1914. Era surda e muda. Aos quinze anos saiu da colônia e foi trabalhar numa casa de Vitória, para poder estudar. Em troca, cuidava da dona da casa, que estava doente.
Toda manhã, antes que a casa acordasse, ela rezava voltada para Jerusalém. Rezava escondida. Vieram os anos do nazismo, e o nazismo tinha braços fortes no Brasil.
O dono da casa era um homem casado, com idade para ser pai dela, poderoso na cidade. Não cumpriu a promessa dos estudos. Violentou minha avó quando ela tinha quinze anos. Ela não podia contar a ninguém, porque não tinha voz. O que uma menina da colônia, surda e muda, filha de judeus alemães, podia contra um homem daqueles?
Anos depois, ela engravidou do primeiro filho. Ele já tinha cinquenta anos, e três filhos do casamento, todos mais velhos do que ela. A esposa, ao descobrir a gravidez, tirou a própria vida. Os filhos saíram de casa e passaram a odiar a minha avó, como se a culpa fosse dela.
Então ele a separou da própria mãe. Proibiu minha bisavó, Maria Colleta Klein, de entrar na casa. Dizia que ela era uma judia imunda e insuportável, que nunca veria os netos. Minha avó ficou presa numa casa que não era a dela, sem voz e longe da mãe. Foram mais de vinte anos assim. Nenhuma certidão de casamento foi encontrada. Na certidão de nascimento da minha mãe, ele registrou a mãe dos seus filhos como empregada doméstica.
Grávida da minha mãe, adoeceu de tuberculose. Antes de morrer, deixou por carta um pedido ao filho mais velho, Aldo: que não deixasse espalharem os irmãos. A carta não sobreviveu. O pedido chegou até nós porque Aldo o guardou na memória e o contou à minha mãe.
Otília Mercher, falecida em 30 de janeiro de 1956, às 20 horas, no Sanatório Getúlio Vargas, em Vitória. Dona de casa, natural do Espírito Santo, casada. O campo e sendo filha de ficou em branco.
Registro Civil da 1ª Zona de Vitória, óbitos, livro 71, fls. 91, nº 32131 · Acervo da família Klein-Löb
O pedido não foi atendido. Ele espalhou os filhos enquanto minha avó ainda estava viva, internada no Sanatório Getúlio Vargas, em Vitória. Minha mãe, com dez meses, foi mandada para o Rio de Janeiro, para a casa do filho mais velho do primeiro casamento, o mesmo que culpava a minha avó pela morte da mãe dele. Ele a entregou a um casal católico de vizinhos, muito pobre, no Engenho Novo, na Zona Norte do Rio. O objetivo era um só: que minha mãe nunca convivesse com a avó judia.
Minha avó morreu no sanatório em 30 de janeiro de 1956 e foi sepultada no Cemitério de Santo Antônio, em Vitória. Na certidão de óbito, o lugar dos nomes dos pais dela ficou em branco.
Minha mãe cresceu humilhada, de todas as formas. A humilhação alcançou a mim e aos meus irmãos. Vivemos isso sem apoio de ninguém, para qualquer lado que se olhasse.
Por isso este memorial não fala de esquecimento. Ninguém esqueceu. Minha avó rezava voltada para Jerusalém numa casa onde era violentada. Minha bisavó foi chamada de judia imunda e impedida de ver os netos. Minha mãe foi entregue a estranhos para que não crescesse judia. Aldo guardou o que pôde, em segredo, até a palavra da mãe. E minha mãe, décadas depois, foi à Justiça para recuperar o nome Klein. Não nos afastamos do judaísmo. Fomos arrancados dele. E voltamos.
Magno Loschiavo Klein, Moshe Ben David, neto de Othilia Catharina. Rio de Janeiro, Tishrei de 5787.
Pessoas deste capítulo
Fontes deste capítulo
- Certidão de nascimento de Ottilia Catharina Mercher, Registro Civil de Santa Isabel, livro 8, fl. 82v, nº 237, 1914
- Certidão de óbito de Otília Mercher, Registro Civil da 1ª Zona de Vitória, óbitos, livro 71, fls. 91, nº 32131, 1956, acervo da família
- Certidão de nascimento da filha Aleida, acervo da família
- Testemunho de Magno Loschiavo Klein, neto de Othilia Catharina, Tishrei de 5787

