II

    Vallendar, uma comunidade pequena e unida

    1333 · 1914

    Vallendar é uma pequena cidade na margem direita do Reno, diante de Koblenz. Há judeus ali desde 1333. No século XVIII eram de dez a doze famílias, cerca de cinquenta pessoas, sob a proteção dos arcebispos de Trier, que cobravam caro por ela: 67 florins para cada homem ser aceito, uma taxa anual de onze florins por homem e cinco por mulher, e ainda a taxa de Ano Novo.

    A cidade era a porta de entrada do Westerwald, a região de colinas a leste, e nos seus mercados se vendia boa parte do gado da região. Por isso os judeus de Vallendar eram, quase todos, comerciantes de gado, açougueiros e comerciantes de couro. Em 1807, sete das onze famílias judias viviam do gado. Não era um ofício de ricos. As listas de impostos mostram famílias modestas.

    Entre 1794 e 1801, a guerra entre a França revolucionária e os exércitos alemães passou por Vallendar. Em 1796 os judeus da cidade escreveram ao governo pedindo alívio nas taxas. Desde a guerra, diziam, tudo o que dava errado caía sobre os judeus, e o comércio tinha sido destruído. Cada um precisava pagar dezoito pfennigs por semana para se livrar dos trabalhos forçados.

    Houve quem os defendesse. Em 1811, o administrador Koch, funcionário do governo em Vallendar, escreveu: eles têm todas as qualidades para ser bons cidadãos; não os expulsem do chão onde nasceram, e eles o terão em alta estima.

    O antigo cemitério judaico de Vallendar, em Weitersburg

    Onde a comunidade enterrou os seus mortos por gerações.

    Reproduzido de B. Resmini, SACHOR 5 (1993), p. 53

    A comunidade não tinha rabino. Quem decidia as questões religiosas era o membro mais velho. Rezavam numa pequena sala de orações, aberta em 1795, e enterravam os seus mortos no cemitério judaico de Weitersburg, ao lado de Vallendar. Em 1825 criaram uma sociedade de ajuda mútua: cada membro pagava uma entrada e uma mensalidade, o fundo sustentava os doentes e as suas famílias, e todos tinham o dever de acompanhar os enterros e de lembrar o aniversário de morte dos que partiam.

    Numa comunidade tão pequena, em que quase todos tinham o mesmo ofício, também havia brigas. Em 1842, nove chefes de família se queixaram de que a diretoria não prestava contas e de que a sala de orações era tão pequena que se brigava por lugar durante a reza.

    Em 21 de novembro de 1852, as famílias judias, pobres, se comprometeram a pagar todo ano de 100 a 120 táleres para construir uma , mais do que pagavam de imposto. O prefeito, Johann Friedrich Schmitz, escreveu ao governo: partindo do princípio de que somos todos irmãos, encorajei os judeus. Conseguiu licença para uma coleta entre outras comunidades judaicas. Para pagar a obra, a comunidade tomou 670 táleres emprestados do comerciante Alexander Bender, e cada família respondeu pessoalmente por uma parte da dívida.

    Em 16 de abril de 1856 foi lançada a pedra fundamental. Um pergaminho com a bênção de sobre a obra, o selo da cidade e a assinatura de todos os membros da comunidade foi enterrado numa garrafa na entrada. Na inauguração, os rolos da foram carregados em procissão solene pelas ruas de Vallendar, diante das autoridades, dos representantes das igrejas cristãs e de toda a população.

    Papel timbrado dos irmãos Loeb, Vallendar, década de 1870

    Cigarren-Fabriken und Rohtabak-Handlung, Gebrüder Loeb, Vallendar am Rhein: fábricas de charutos e comércio de fumo em rama dos irmãos Loeb. Depois de 1850, algumas famílias judias da cidade deixaram o comércio de gado e viraram fabricantes.

    Landeshauptarchiv Koblenz, Best. 584,1 Nr. 1257 · reproduzido em B. Resmini, SACHOR 5 (1993), p. 52

    A comunidade era muito tradicional. Até 1930, judeus de Koblenz atravessavam o Reno para rezar em Vallendar, porque ali a reza era mais ortodoxa. O regulamento da sinagoga acabou com a venda de lugares de honra e deixou de usar como fonte de dinheiro as honras de levantar a Torá e de ser chamado à sua leitura. Para manter a sinagoga e o professor, cada família pagava por ano cerca de dois por cento do que tinha.

    As crianças judias estudavam na escola da cidade, com os filhos dos cristãos, e tinham aulas de religião à parte. De 1855 a 1887 a comunidade manteve uma escola própria. Depois disso, o dava de dez a catorze horas de religião por semana.

    Por volta de 1900 a comunidade chegou ao seu tamanho máximo, cerca de 50 famílias e 200 pessoas. Os judeus participavam dos clubes de ciclismo, de ginástica, de remo e de canto. Entre 1900 e 1920 havia, em geral, um vereador judeu na câmara. Em 1899 o clube de carnaval mais antigo da cidade elegeu como presidente um judeu, Hermann Scheye. Algumas famílias deixaram o gado e viraram fabricantes, como os irmãos Loeb, com a sua fábrica de charutos.

    Pessoas deste capítulo

    Fontes deste capítulo